No meu primeiro ano de vida, meu avô me deu uma árvore, e segundo contam meus pais, ele disse assim: “Essa árvore Pretinha (apelido que ele me deu) crescerá forte junto contigo e só cairá quando tu caíres”. Os anos foram passando e meu avô cuidava daquela árvore como cuidava de mim. Após cada tormenta ele ia pessoalmente ver se os galhos ainda estavam no lugar. E a árvore cresceu forte, mais forte que eu. Enfrentou muitas tormentas, mas permaneceu alí, onde meu avô a plantou.
Certo dia, os pinheiros que a cercavam tiveram de ser cortados. A ideia era cortar todas as árvores que cercavam a piscina da casa de campo, mas meu avô se negou a cortar a minha árvore, mesmo que as folhas dela sujassem a piscina durante o outono. “Essa árvore eu jamais vou cortar, essa árvore só sairá daí quando a Pretinha não estiver mais aqui”.
Depois disso a saúde de meu avô começou a ficar debilitada e ele não pôde mais cuidar das suas plantas (sua atividade preferida) e nem da minha árvore. Mas eu notava, que mesmo na cadeira de rodas ele observava todos os dias aquela árvore que ele havia me dado há alguns anos atrás. Um dia, quando um fiapo de voz ainda lhe sobrava ele me chamou e disse: “Pretinha, a árvore está meio seca tu não achas?”. Respondi que sim ao que ele comentou: “Ela está assim porque tu não estás feliz. Tem algo que eu possa fazer pra te ver mais feliz?” Isso ele disse mal conseguindo falar. Ele estava morrendo e mesmo assim ainda se preocupava com a minha felicidade.
Meu avô me ajudou muito no primeiro ano de faculdade. Comprou os móveis do meu apartamento, pagou meu inglês e me incentivava cada dia mais. Mas no segundo ano de faculdade, o coração dele não aguentou. Eu como tinha uma ligação muito forte come ele, senti que o estava perdendo e fui para minha cidade ver como ele estava. Chegando lá, o vi quase sem consciência em uma cama de hospital, um guerreiro estava lá, com o corpo debilitado pelos anos de tratamento de saúde. Sua última palavra foi: “Mãe, me leva daqui”. Talvez tenha sido para minha bisavó que havia partido alguns anos antes. Só sei que com essas palavras a respiração dele parou, assim como o coração. Dei-lhe o último beijo de despedida e ele se foi.
Disse adeus ao homem que me parecia invencível. Imortal. Imbatível. Talvez ele tivesse aguentado mais se possuísse uma árvore como a minha. Mas meu avô foi um homem que abriu mão da própria felicidade para dar um futuro aos filhos e netos. Hoje me formo na faculdade com a certeza de que ele estará orgulhoso de mim. E a nossa árvore, vô, ela estará lá firme e forte como eu, como o senhor queria.
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